O QUE QUER DIZER A PALAVRA NORMAL ?
“Mulher que mudou de sexo mas manteve o
útero está à beira de ser mãe, recorrendo à
inseminação artificial e depois de deixar de
tomar testosterona”
(Público, 28 Março)
O mundo teve, esta semana, conhecimento de um caso, no mínimo, extremamente perturbante.
Thomas Beatie, cidadão norte-americano, nasceu mulher. Mas queria ser homem.
Para isso, ainda durante a adolescência, ter-se-á submetido à operação que lhe trocou o sexo. Fez tratamentos de testosterona e retirou os seios. Mas conservou os órgãos reprodutivos.
Casou com Nancy, há cerca de dez anos, mas Nancy, a sua mulher, não podia ter o filho biológico que queriam ter por ter sido submetida, há vinte anos, a uma histerectomia.
Problema impossível de ultrapassar? Não!
Thomas pensa que “ter um filho biológico não é desejo masculino ou feminino; é um desejo humano”.
Partindo desta verdade incontestável, resolveu o caso assim: fez retroceder parte do processo que o transformou no homem que optou por ser interrompendo o tratamento de testosterona. Recorreu à inseminação artificial e…engravidou!
Agora, com cinco meses de gravidez, o homem que vemos na fotografia acima, aguarda o nascimento de uma menina.
“Eu serei o pai, Nancy a mãe, e seremos uma família. Sou um transgénero legalmente homem e legalmente casado. Para os nossos vizinhos, para a minha mulher Nancy e para mim não parece nada fora do normal” resume Thomas Beatie.
Não parece nada fora do normal?
Olho para a fotografia e, não estivesse eu a par do caso, poderia pensar tratar-se de uma fotomontagem, de um extraterrestre, de sei lá eu que mais!
Bem, este homem tem, naturalmente, o direito de fazer com o corpo dele o que bem entender. E tem o direito, do meu ponto de vista, de, apesar de ter nascido mulher, ter optado por ser homem. Terá ali havido, digamos, um engano da natureza que entendeu corrigir.
Este assunto é da esfera privada de cada um. Não me faz nenhuma confusão.
O que me inquieta não é, portanto, este problema das pessoas que se sentem ser um outro que não o que o “invólucro” diz serem e a necessidade que sentem de viverem de acordo com o que entendem ser a sua verdade.
O que me inquieta são, pelo menos, duas outras coisas:
Primeiro, e antes de mais, a criança. A criança desta pessoa que sendo objectivamente a sua mãe, vai ter que tratar por pai.
Esta criança que ainda não nasceu e já está condenada a viver com um estigma numa sociedade em que é suposto inserir-se.
Será que o egoísmo atroz destas duas pessoas lhes deixou espaço para reflectirem no futuro da criança que vai nascer?
Será que é lícito que alguém na comunidade médica se prontifique a ajudar a concretizar semelhante coisa?
Então, e os direitos da criança? O direito, por exemplo, ao respeito, à paz, à privacidade?
Sabemos os desajustamentos psíquicos de que sofrem as crianças que vivem no seio de famílias convencionais mas desestruturadas.
Como se imagina o reflexo que pode ter na formação de uma criança o ver-se confrontada com a verdade da sua gestação? Quando lhe contarem que o seu primeiro berço foi a barriga do pai que tinha sido mulher antes de ser homem, motivo pelo qual pôde acolher espermatozóides de um homem cuja identidade desconhece?
Se, sem que, até aqui, se tivesse alguma vez chegado a semelhante imbróglio, já nos deparamos com muito de louco na sociedade em que vivemos, como serão as sociedades vindouras?
Definitivamente não consigo, sequer, imaginar.
Esta absoluta subversão de valores para onde nos arrastará?
A minha outra inquietação prende-se com o significado das palavras. Com o valor das palavras.
Este Thomas Beatie, a mulher Nancy e os vizinhos entendem que tudo isto é normal.
Mas, então, quais são as fronteiras da normalidade?
O que quer dizer normal?
A normalidade é evidentemente um conceito subjectivo.
O que é considerado normal por um indivíduo não o será por outro. O que é considerado normal numa sociedade ou numa cultura poderá ter valor oposto noutra e, naturalmente esses vários rostos da dita normalidade devem ser respeitados por assentarem naquilo que é a herança cultural que nos diversifica e, por isso, nos enriquece.
Bem, devem ser respeitados se não forem alienatórios dos direitos individuais ou colectivos como é, por exemplo, o caso da excisão do clítoris culturalmente aceite em algumas sociedades.
Não são esses vários rostos da normalidade o motivo da minha reflexão.
Quando quero ajuizar uma situação sirvo-me de parâmetros que me guiam.
Para que os tribunais possam ajuizar da conduta de alguém que têm de julgar servem-se naturalmente de parâmetros. E que parâmetros são esses? Tratando-se de comportamentos, são as tais margens a que me referi num dos comentários anteriores. São as regras, os conceitos estipulados, por maioritariamente aceites como certos, pela sociedade em que nos inserimos.
No caso concreto que motivou este meu escrito, não percebo como pode ser analisado num quadro de normalidade esta subversão dos valores que são efectivamente os parâmetros por que nos guiamos para falar de pai, mãe, filhos, família.
Uma coisa é a evolução natural das sociedades e das regras que têm que a ela se adaptar, como é do senso comum. Outra, bem diferente, é, em defesa dos direitos individuais, por mais estranhos ou egoístas que sejam, passarmos a aceitar comportamentos que podem vir a ser sementes de focos de alienação colectiva e, por isso, lesivos à sociedade.
Há tanta, tanta coisa que não entendemos!
E se não as entendemos, como as vamos explicar às crianças que temos de preparar para o futuro?
Em que base vai assentar a estrutura psicológica dessa nova geração?
Que herança lhes deixamos? Só pontos de interrogação?
É por estas e por outras que se tornou absoluto dever das sociedades o viverem em estado de alerta permanente. Para poderem dizer NÃO! quando as quiserem empurrar para o vazio!
E dever de cidadania recusar firmemente a alienação absoluta dos valores éticos em que deve ser alicerçada uma sociedade!
Jakarta 29 de Março, 2008
Libânia Feiteira é licenciada pela Universidade de Viena em Línguas e Literaturas Modernas (variante de Português / Francês).
Fez o Curso Geral de Teatro e o Curso Superior de Educação pela Arte no Conservatório Nacional de Lisboa. Viveu em Moçambique, na Alemanha, no Senegal, na Áustria e na Austrália. Vive actualmente na Indonésia.
Colabora no GARATUJANDO com trabalhos literários na forma de “Contos”, - livro a publicar com o título “AQUI ENTRE NÓS”, também com poesia falada e com trabalhos de criação artística. Ultimamente tem publicado aqui “COMENTÁRIOS” em que aborda temas da actualidade.
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