Sexta-feira, 4 de Abril de 2008
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AGUARDAR UNS BREVES INSTANTES ENQUANTO O GARATUJANDO CARREGA

A MÚSICA DE FUNDO PODE DEMORAR CERCA DE UM MINUTO  

  

 

 

 

                                    

                                     foto de Ana Sofia Fonseca

                                                 in Revista "Única" do "Expresso"

 

 

"ESSA SENHORA MALVADA QUE DÁ PELA GRAÇA DE SOLIDÃO"

 

Estava a ler a revista Única do Jornal Expresso de 21 de Março, que acabara de me chegar às mãos, e as duas páginas que nela são dedicadas ao homem que vemos na foto acima ficaram por dentro de mim. Tomaram conta do meu dia.

Qual era o conteúdo dessas páginas?

O registo de uma conversa breve. E esta foto, que aqui vos trago, publicada em página e meia, ambas de Ana Sofia Fonseca.

Perguntas breves. Breves respostas. Um rosto. Uma mão a acenar.

Nenhum comentário pessoal da parte da jornalista.

A imagem muito maior do que as palavras.

A noção exacta dos elementos necessários para dar ao drama daquele homem a dimensão que ele tem: enorme!

Como título, as palavras:

“Chamam-me o Senhor do Adeus, mas eu sou o Senhor do Olá. Aquele que acena no Saldanha, a partir da meia-noite.”

Que história é esta?

É a história de um homem, João Manuel Serra, de 76 anos, nascido e criado em Lisboa que, desde há cinco anos, tem como objectivo de vida ir, todas as noites do ano, para a Praça do Saldanha e por ali ficar, junto de um semáforo, desde a meia-noite até às três da manhã.

E que faz ele ali?

Acena. Acena às pessoas que passam nos carros. E, às vezes, atira-lhes beijinhos.

Chamam-lhe o Senhor do Adeus mas ele diz que é o Senhor do Olá.

Estranha história! Trata-se de um louco? De um sem-abrigo que a vida transtornou?

Não!

Trata-se de um homem que nasceu numa família de muito dinheiro. Que viveu sempre economicamente muito bem (como ainda vive). Que foi perdendo todos aqueles que constituíram o seu mundo. Que viveu e viajou sempre na companhia da mãe que foi também a sua companheira de todos os dias e que já não tem.

Que se sente literalmente só.

À pergunta: Tudo isto é solidão?

Respondeu: Essa senhora é uma malvada que me persegue por entre as paredes vazias da casa. Para lhe escapar, venho para aqui. Acenar é a minha forma de comunicar, de sentir gente.

E vai contando: “Venho para a Praça Duque de Saldanha desde que fiquei nas mãos de não ter ninguém. Nasci aqui perto, na casa de minha avó. Um palacete tão bonito que o Calouste Gulbenkian quis comprá-lo.”

“A vida dá estranhas voltas, o meu destino é acenar a quem me cumprimenta. Estou sujeito a que me chamem maluco, mas não me importo. Da minha solidão, sei eu.”

É evidente que o mundo está cheio de histórias de solidão. Histórias terríveis de solidão.

Mas a forma como este homem resolveu minimizar a sua dá-lhe uma outra dimensão. Por isso se fica, assim, estupefacto, entre o surpreendido e o comovido. Com necessidade de entender.

João Manuel Serra não trabalha. Dispõe de todas as horas do dia.

Porque não procura ele comunicar com os outros frequentando cafés, lojas, sítios onde é fácil o relacionamento com outras pessoas?

 Porque escolheu ele a noite para se pôr, sozinho, numa Praça de Lisboa a acenar a quem passa nos carros?

Será porque o misturar-se com os outros, o embrenhar-se na lufa-lufa de quem trabalha, de quem tem a vida cheia, lhe tornaria, por contraste, mais vazia a sua?

Será que se sente tão excluído que precisa de se esconder sob o manto da noite, como se fora um ladrão, para esmolar um sorriso em troca de um aceno de mão?

Será que viveu uma vida de protagonismo e esse protagonismo, agora, só o consegue se não tiver com quem o disputar?

Será que fez da Praça do Saldanha o seu palco e dos que passam o seu público, para ali representar, em cada dia que passa, o drama com que desafia “essa senhora malvada que dá pela graça de solidão”?

É efectivamente uma história incrível!

Mas há aqui um dado a reter:

Aquela mão que nos acena da foto, deformada pela artrite dos anos, aquele esboço de sorriso no lábios e nos olhos que o tempo encolheu, só não formam uma imagem completamente patética porque este homem tem, dentro dele, ainda, força suficiente para enfrentar essa tal senhora malvada que o persegue por entre as paredes vazias da casa.

Com um aceno cumprimentamos tanto quem chega como quem parte. Com um aceno dizemos Adeus ou Olá.

Mas este aceno de um homem de 76 anos, sozinho, de noite, na Praça do Saldanha criou, nos outros, um equívoco que quis desfazer.

Ele está só, terrivelmente só, mas não está derrotado.

Ele não é o Senhor do Adeus. É o Senhor do Olá. Há cinco anos.

“Venho para a Praça Duque de Saldanha desde que fiquei nas mãos de não ter ninguém.”

 E ficar nas mãos de não ter ninguém é resumir num verso o drama de uma vida!

 

 Libânia Feiteira

Jakarta, 31 Março, 2008

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 Libânia Feiteira é licenciada pela Universidade de Viena em Línguas e Literaturas Moderna (variante de Português / Francês).
Fez o Curso Geral de Teatro e o Curso Superior de Educação pela Arte no Conservatório Nacional de Lisboa. Viveu em Moçambique, na Alemanha, no Senegal, na Áustria e na Austrália.
Vive actualmente na Indonésia.
Colabora no GARATUJANDO com trabalhos literários na forma de “Contos”, - livro a publicar com o título “AQUI ENTRE NÓS”,- também com poesia falada, com trabalhos de criação artística e com Comentários sobre temas da actualidade.

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publicado por garatujando às 00:13
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