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A Póvoa não pode ser uma feira de trapos!
Preocupa-me imenso saber quem é a pessoa, quem são as pessoas que vão ficar à frente dos destinos da minha terra.
Que sejam pessoas de bem. Honestas e competentes. Trabalhadoras e com sentido de cumprimento do dever. Que saibam olhar com olhos de ver o passado para poderem, não sobre ele, mas nele, rasgar o futuro. Que apresentem um programa eleitoral que sirva as reais necessidades da minha terra e que, sufragado pela sua gente, o cumpram escrupulosamente. Essa, sim, é a minha preocupação.
Posto isto, penso ser da mais elementar justiça dizer que são muitos os aspectos que considero positivos na gestão do executivo camarário à frente do qual tem estado o Dr. Macedo Vieira.
Mas quero também dizer que lamento imenso que na Póvoa, e em muitas outras terras em Portugal, a urgência de modernizar assente na necessidade de destruir.
Vivi em alguns países e visitei muitos outros.
E é justamente nos termos de comparação que essas vivências me proporcionaram que reside o meu desencanto em relação ao que em Portugal, e na Póvoa em particular, se faz.
Modernizar não deveria querer dizer arrancar a alma.
Modernizar deveria, tão só, querer dizer melhorar, adaptar, evoluir, construir o futuro preservando aquilo que nos diferencia, que nos personaliza. Preservando a nossa identidade cultural. Os nossos valores enquanto comunidade.
Coser no pano de linho, que era o nosso tecido geográfico, remendos de panos diversos, ainda que modernos e eventualmente bonitos, transforma-o numa manta de retalhos.
Há muitos anos que vivo fora do meu país.
E, quando penso na minha terra, do que me lembro é do cheiro a algas e a mar.
E, pelo menos disso, felizmente, nunca ninguém nos privará!
Quando penso na Póvoa, não penso nunca na Póvoa de hoje.
A Póvoa cheia de prédios em altura junto ao mar, com discotecas a impedirem os olhos de se lavarem no infinito, a Póvoa de cimento é uma adulteração do que foi a minha Póvoa.
Já não tem o som, todo feito de insondáveis mistérios, com que a ronca tomava conta de nós nas noites de nevoeiro.
Já não tem o sabor a mar que as gentes tinham e que inevitavelmente o andar do tempo levou.
Já não tem o cantar das mulheres, pelas ruas, a apregoar o peixe.
Mas podia ter conservado a traça. E a raça. E não conservou.
Em contrapartida, a Póvoa está muito mais cuidada. Tem mais elementos estatuários ligados ao mar ou às suas gentes.
A Póvoa tem uma frente de mar muito mais bonita, muito mais atractiva e aumentada.
A Póvoa dispõe, hoje, de infra-estruturas importantes para apoio e bem-estar da sua gente.
Mas a Póvoa tem, também, muito mais cimento. Um excesso de cimento!
A Praça do Passeio Alegre é um exemplo.
A nova Av. Mousinho de Albuquerque, outro.
O largo do Casino, outro.
E tem elementos decorativos que são modernices impensáveis como aqueles postes de ferro que “plantaram” na Praça do Almada!
Como aquelas “sertãs” de metal que são os candeeiros da Praça do Passeio Alegre, para apontar apenas dois exemplos.
Sisa Vieira fez o mesmo à Avenida dos Aliados, no Porto. Arrancou-lhe o verde, destruiu a calçada portuguesa, vestiu-a de cimento, de cinza-luto, na convicção de estar a modernizar.
Bem, mas a minha intenção não é, neste comentário, analisar a obra feita, e é muita, pelo actual executivo da Câmara.
O que motivou este comentário foi a proximidade do Verão, a proximidade do meu retorno à Póvoa e a recordação, amarga, do que aí vi no ano passado.
Quem anda a pé na Póvoa mas, sobretudo, quem percorre a Avenida dos Banhos, frente ao mar, que deveria ser motivo de cuidado extremo por ser exactamente aquele o espaço de sedução de quem nos visita, com que é que se depara?
Com quase porta sim, porta não, uma loja chinesa!
Seria igualmente mau se fossem lojas a vender as muitas coisas boas que a China tem mas, como factor agravante, são lojas de roupinha barata, trapinhos, escovas, pilhas, brinquedos, detergentes, coisas de feira.
Uma feira de produtos chineses ao correr de toda a Avenida que é o cartão-de-visita da Póvoa! E os programas de televisão a emitirem canais chineses minguando a saudade de quem teve que deixar o seu país para melhorar a vida ou sobreviver!
E a gente, de repente, tem de parar para pensar se não se enganou. Se é na Póvoa de Varzim, em Portugal, que está.
Tenho o maior, o mais completo dos respeitos por todos os emigrantes. Venham eles de onde vierem.
Se a Póvoa os pode acolher bem e dar-lhes a possibilidade de, junto de nós, levarem uma vida melhor, deve fazê-lo!
O que a Póvoa não pode, de modo nenhum, é deixar que na sua terra, a mais privilegiada das suas zonas se transforme numa cidade chinesa.
Criem-se, como muitas cidades por esse mundo fora têm, zonas onde esta comunidade possa, dada a quantidade, instalar o seu comércio sem desequilíbrio da unidade em que se insere.
Poderia ser entendido como marginalização? Bom, então dissemine-se por várias áreas o seu comércio para que a sua concentração não descaracterize a cidade.
Já alguém imaginou uma outra cidade da Europa onde fosse possível, numa das suas avenidas principais, naquela que é visitada por maior número de turistas, uma comunidade portuguesa instalar esta quantidade de lojas para vender galos de Barcelos, louça de barro, paninhos de tabuleiro, pijaminhas para criança, líquido verde para o chão?
Quem escolhe a Póvoa para visita ou como local de férias não a escolhe por esta proliferação de lojas dos trezentos!
Quem nos procura quer encontrar cultura, arquitectura, tradição, modernidade, qualidade!
Não tenho nenhuma dúvida em considerar que esta opção da Câmara é suficiente para desvalorizar o muito e bom trabalho que tem feito.
Não tenho dúvida nenhuma que ela estraga a minha terra, cria uma péssima impressão em quem a visita e lesa, de forma escandalosa, todo o comércio local.
Parece-me, por isso, urgente que se reveja esta situação.
Libânia Feiteira
Jakarta, 3 de Abril, 2008
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Libânia Feiteira é licenciada pela Universidade de Viena em Línguas e Literaturas Moderna (variante de Português / Francês).
Fez o Curso Geral de Teatro e o Curso Superior de Educação pela Arte no Conservatório Nacional de Lisboa. Viveu em Moçambique, na Alemanha, no Senegal, na Áustria e na Austrália.
Vive actualmente na Indonésia.
Colabora no GARATUJANDO com trabalhos literários na forma de “Contos”, - livro a publicar com o título “AQUI ENTRE NÓS”,- também com poesia falada, com trabalhos de criação artística e com Comentários sobre temas da actualidade.
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