FILANTRÓPICA
encenação resumida do antigo
SERÃO POVEIRO
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A actual direcção de A Filantrópica - Cooperativa de Cultura CRL, agora presidida pela Dra. Sandra Brandão, tem em execução um vasto programa de actividades tendentes a dinamimizar a vida daquela instituição poveira, que conta já com 73 anos de fecunda e diversificada existência.
Inseridos no programa de renovação da vida associativa, existem presentemente em actividade na Filantrópica os seguintes cursos que contam com assinanável frequência:
- PINTURA / DESENHO
- ARTES DECORTIVAS
- YOGA
- MÚSICA
- DANÇA HIP-HOP
- MANUTENÇÃO
Muitos outros cursos e iniciativas de variadas áreas estão programadas, algumas das quais já em fase de inscrição.
Mas o programa delineado não se fica apenas por acções de formação - o que seria, já de si, muito louvável. A vertente associativa da instituição está a merecer, também, especial interesse, tendo sido já elaborado em traços gerais, um programa de realizações culturais e de lazer que se estenderá, nesta fase, até ao fim do corrente ano e que, certamente, vai incrementar a frequência da sede pelos cooperadores e pelos poveiros em geral.
Pela primeira vez, a Filantrópica associou-se activamente às Festas de S.Pedro, propiciando na sua sede e no espaço adjacente, aos "da casa", a convidados e, dum modo geral, a todos os poveiros, um clima próprio daquelas marcantes festividades, em que não faltou a tradicional sardinhada e tudo o mais que é de tradição nessa animada noite.
Em 1 do corrente, inaugurou-se, num convívio com " Porto de Honra", um polo de artesanato - com natural relevância para o artesanato poveiro - depois do que o conjunto cénico do "Grupo Recreativo e Etnográfico AS TRICANAS POVEIRAS" levou a efeito, no salão principal, a encenação dum "Serão Poveiro" designado "Ralho entre famílias".
O serão poveiro é descrito com minúcia por Santos Graça no seu livro "O Poveiro", precioso repertório de leis e preceitos da comunidade poveira.
Essa obra dá-nos a conhecer pormenorizadamente os seculares usos, costumes e tradições que este povo ímpar tem sabido preservar ao longo das gerações e, entre as suas muitas ilustrações, inclui uma gravura que retrata o serão poveiro tal como era vivido antigamente:
Segundo Santos Graça, o Poveiro fazia muitos e contínuos serões em que a família toda, incluindo as crianças a partir dos sete anos, se empenhava em diversas tarefas.
As mulheres ocupavam-se em fiar, torcer e dobar o linho a utilizar nas redes, e a pisar casca de salgueiro que depois utilizavam numa cozedura que se designava "encascar as redes".
Este tratamento, que se processava em tinas apropriadas com a água aquecida numa caldeira, conferia às redes maior resistência ao mesmo tempo que lhe dava uma cor avermelhada.
Os homens aparavam as cortiças, furavam-nas com os trados, e entalhavam nelas a marca da família. Consertavam, com instrumentos próprios (agulhas de madeira) as redes danificadas, faziam e entralhavam redes novas utilizando uma medida chamada bitola (muro) para que as cortiças ficassem colocadas a distâncias regulares entre si.
Com tão diversificadas e laboriosas tarefas, os serões, começavam cerca da uma hora da madrugada e estendiam-se até ao romper do dia.
Quando os homens se encontravam na faina do mar, as mulheres faziam o serão entregando-se aos afazeres que lhes competiam, enquanto cantavam, conversavam e, por vezes, altercavam entre si em pequenas querelas que acabavam sempre em bem.
Se surgia um assunto mais sério - como, por exemplo a notícia dum namoro -, logo se procurava averiguar quem era a "outra parte", porque o processo e eventual seguimento obedecia a regras de conduta e preceitos de classe que se impunha respeitar.
Foi com base no que, acerca deste curioso costume, chegou até nós através da tradição oral e da descrição de Santos Graça, que António Pereira, dirigente das "Tricanas Poveiras" desde a sua fundação, escreveu o guião para a representação do serão poveiro que consta do repertório daquele grupo cénico e agora apresentado na Filantrópica.
A abrir a sessão Sandra Brandão agradeceu a presença do púb
Jorge Silva, elemento ligado à Filantrópica há muitos anos, historiou em claro resumo como foi criada e o que tem sido a actividade do "Grupo Recreativo e Etnográfico AS TRICANAS POVEIRAS", cujo "Boletim Informativo", de edição periódica, é da sua responsabilidade.
António Pereria explicou, então, o que iria passar-se no "Serão" que se seguiria.
O acto propriamente dito iniciou-se com um momento de poesia pela poveira Albina Dias, autodidacta que escreve poemas normalmente sobre temas ligados ao mar e à nossa Terra.
Albina Dias tem alguns livros de versos publicados, e é também conhecida por, de forma expressiva, os dizer em público com frequência, quer integrada nas TRICANAS POVEIRAS de que é regular colaboradora, quer acedendo a convites que lhe são feitos.
A acção do serão decorre em duas casas distintas, esquematicamente representadas a par uma da outra, com os respectivos elementos que compõem uma e outra família, ocupados nos seus afazeres.
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a casa do lanchão que, no meio piscatório era considerado da classe "nobre",
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e a casa do sardinheiro, que pertencia à "plebe".
O guião é, propositadamente, duma grande simplicidade, sem um verdadeiro fio condutor que sustente qualquer estória. Serve apenas de pretexto para que cada interveniente utilize, circunstancialmente, num dito espontâneo, numa recomendação de momento ou numa observação casual que vão surgindo naturalmente em conversa fragmentada ao longo do serão, termos antigamente usados pela pescaria cujo significado era, na maioria dos casos, apenas entendível pelos da classe ou por quem intimamente vivesse relacionado com ela.
A finalidade é, na verdade, relembrar essa forma de falar e de dizer muito própria da nossa gente.
Por isso é que os elementos que constituem o grupo cénico ou são oriundos de pescadores ou com eles têm convivido permanentemente, de modo a poderem dialogar utilizando termos daquela espécie de dialecto cuja maioria é constituída por expressões que só aqui se ouvem.
Mas nem por isso a representação tem menos interesse, porque o sentido geral do que está a ser dito é assegurado pela entendimento fácil das restantes palavras, essas sim, comuns a toda a gente.
E há todo um conjunto de pormenores que valorizam o acto e retêm a atenção de quem assiste, desde o gesto largo que enriquece a fala, à postura, e à expressão do rosto de cada interveniente. Apesar de se tratar de simples amadores, parecem por vezes autênticos profissionais..
Pelo meio, ouviram-se canções tradicionais poveiras que permanecem no ouvido de todos e que os presentes acompanharam com entusiástico saudosismo.
No fundo, a representação resulta numa expressiva demonstração etnográfica, pela encenação onde constam elementos materiais e apetrechos relacionados com a actividade piscatória, e ainda pela noção do comportamento familiar e social que dessa representação se retira.
A valorizar este aspecto, a reacção ao anúncio de namoro entre dois elementos de classes diferentes, cuja ligação foi de imediato repudiada por cada uma das famílias, questão essa que, depois duma discussão de grande vivacidade entre as mães respectivas, acabou por ser resolvida a bem, com uma cerimónia caseira pré-nupcial em que todos se entenderam: já aprazado o casamento, os noivos foram significativamente envolvidos numa rede branca que, conforme impunha a tradição, vinha a ser preventivamente feita pela mãe do noivo, e tudo terminou entre a alegria geral, com tradicionais canções poveiras.
Estão de parabéns a "FILANTRÓPICA" e "AS TRICANAS POVEIRAS" pelos agradadáveis momentos que proporcionaram a quem teve oportunidade de estar presente.
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