Terça-feira, 19 de Agosto de 2008
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                                                   FESTAS

                                             DE                   

                         NOSSA SENHORA DA ASSUNÇÃO

                                      

                  

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BREVE RESENHA HISTÓRICA 

O pescador poveiro é profundamente religioso e encontra na  sua fé, na crença dos seus santos, apego e amparo para as dificuldades e perigos da sua arriscada profissão.
Vem de longe a  devoção do pescador por Nossa Senhora da Assunção, sua padroeira e protectora, que se venera na Igreja da Lapa, em pleno bairro sul cuja população é constituída na sua quase totalidade por pescadores ou gente de qualquer modo ligada ao mar.

A edificação da igreja da Lapa remonta à última metade do século XVIII,  época em que entraram em Portugal os missionários apostólicos para pregarem a palavra de Deus, tomando para protectora dos seus trabalhos a Virgem da Lapa - que se julga ser evocação da "Lapinha de Belém".
A acção dos  missionários irradiava por todo o norte do país, sendo Varzim uma das terras escolhidas para esse efeito.
A devoção da Senhora da Lapa começou na capela de S.Roque - também conhecida por S.Tiago - porque mais nenhum templo havia na zona habitada pelas gentes do mar.
No sul da vila havia o lugar do "facho", designação que se crê vir das antigas "atalayas", que eram redutos de construção terrosa dentro dos quais se acendia, de noite, qualquer matéria inflamável que - precursores dos actuais faróis - serviam  de guia aos antigos mareantes, que por elas se norteavam.  
Nesse lugar havia então  estaleiros de pequenas embarcações  e os mestres calafates exerciam ali o seu mester, Em sua volta vivia um significativo número de pescadores que instalavam, no areal, os seus varais para secagem das redes.
E foi precisamente ali, no meio daquela gente humilde e desamparada,   que os missionários decidiram erguer um templo em honra da Virgem da Lapa,  o qual viria a ser inaugurado em 15 de Agosto de 1772.

A comunidade piscatória, que entretanto  se foi adensando, criou, em 1761, a Confraria de Nossa Senhora da Lapa, para "amparo dos Homens do Mar". que durante muitos anos funcionou como uma verdadeira associação de classe,

Data de 1782 - há, portanto, 226 anos – a  primeira referência à Procissão, modesta  com três andores apenas, realizada pela Confraria da Lapa que, entretanto, em 1792,  passara  a ser designada por "Real Irmandade de Nossa Senhora da Assunção".
O evento religioso  foi ganhando importância ao longo do tempo, e transformou-se na festa grande dos pescadores, com características próprias e inconfundíveis das gentes do mar. Teve o seu apogeu há algumas dezenas de anos atrás; quando a frota poveira de pesca era muito numerosa.

Cada barco tinha a “Rede da Senhora” iniciativa piedosa criada pela religiosidade de homens que vivendo em permanente risco de vida, se arrimavam à sua fé nos momentos de maior perigo.  O produto dessa rede revertia,  na proporção da sua importância - lanchas e barcos sardinheiros -, a favor da Irmandade que, por via dessa contribuição, se tornou na mais próspera e rica da Póvoa.
 No dia 15 de Agosto, a Virgem é venerada com toda a pompa e circunstância e nesse dia nenhum barco sai para o mar.
 Uma das  formas tradicionais como os pescadores  mostram  o  profundo sentimento religioso  que  dedicam  à sua Augusta Padroeira consiste em colocarem  no cimo dos mastros dos seus barcos os melhores lenços da sua mulher, filhas e noivas,

    

Varados no areal da baía  (nesse tempo não havia ainda o porto de abrigo que viria a  ser construido muito mais tarde, na década de 1950)  os  barcos eram, assim,  briosamente engalanados com antigos lenços de merino estampado, – o chamado lenço chinês - de vistosas cores, que faziam parte da indumentária da mulher do pescador. Neste dia especial drapejavam galhardamente.no alto dos mastros quais festivas flâmulas.  O  rude mas  sensível homem do mar prestava, assim,  singela homenagem à sua companheira de trabalho e mãe dos seus filhos, ao mesmo tempo que mostrava a sua veneração pela Senhora que o protege.
A numerosa frota que cobria praticamente todo o vasto fieiro (designação do amplo espaço de areia fina que constitui a borda de água na praia do peixe)  resultava, assim vistosamente engalanada, num aparatoso espectáculo de colorida  alacridade.

O número de barcos de pesca na Póvoa tem, entretanto, vindo a reduzir-se  devido a vários factores:  escassez das espécies que progressivamente se faz sentir, a imposição de regras comunitárias que determinaram o abate de unidades pesqueiras, o galopante aumento dos combustíveis que desincentivam a pesca afastando os pescadores para outras paragens e as novas gerações para outras actividades.

Por tudo isso o movimento do porto de abrigo da Póvoa vai sendo cada vez menor.
Os barcos que permanecem continuam a respeitar a tradição, não saíndo para o mar no dia da Padroeira, Mas não apresentam já o aspecto festivo doutros tempos. Os pescadores continuam a contribuir para o "Mealheiro da Confraria" mas a tradição da "Rede da Senhora" também perdeu significado.

Agosto é, desde sempre,  o mês balnear por excelência com uma população flutuante que quintuplica a população residente mercê dos muitos milhares de pessoas que aqui se encontram a passar as suas férias.
Neste dia, mais gente ainda - muitos milhares -, vem de toda a parte para assistir às Festas em honra de Nossa Senhora da Assunção que, como é uso em Portugal nas festas de raiz popular, além das solenidades litúrgicas têm a sua componente profana. 
Num hábito que se vai perdendo com o correr dos tempos, não há ainda muitos anos que a Póvoa era ponto obrigatório de destino de inúmeras camionetas com divertidos grupos excursionistas, vindos dos pontos mais diversos do País, que se auto designavam com os nomes mais bizarros, de pendor humorístico, escritos em faixas de pano fixadas de forma bem visível no exterior dos veículos. Lembro, por exemplo “ O Molha o Bico” e o “ Grupo Excursionista Trocopasso”, entre  tantos outros.
Alguns destes grupos excursionistas traziam, no tejadilho da camioneta, altifalantes que reproduziam música popular em voga na época e, não raro, faziam ouvir “O mar enrola na areia” – do Grupo Folclórico Poveiro – em homenagem à nossa Terra.
Estes excursionistas, que se quotizavam ao longo do ano para custear esse passeio, saiam de madrugada das suas terras e, num percurso turístico pré determinado, rumavam à Póvoa para assistirem às Festas da Assunção, finalidade última do seu itinerário.
E era vê-los, alguns logo pela manhã, a chegar num incontido alvoroço, carregando cestos e garrafões de onde, horas mais tarde, no areal ou nos jardins, sacavam dos saborosos e bem fornecidos farnéis com que se refastelavam alegremente.
Muitos, mormente os de origem rural, traziam violas, acordeões e outros instrumentos, e contribuíam, com a sua música e os seus cantares, para o ambiente de franca alegria que a cidade vivia.

    

 Ao saírem das respectivas camionetas, os excursionistas eram imediatamente assediados pelos fotógrafos ambulantes, com as suas primitivas máquinas de tripé, para a fotografia da praxe - "o retrato à la minute" , como era vulgarmente designado - e que servia “para mais tarde recordar”.
Nesse tempo havia seis ou sete destes profissionais que tinham na época balnear o seu “S.Miguel”. Angariavam o seu meio de subsistência junto destes forasteiros excursionistas e calcorreando durante o dia inteiro toda a extensão do areal pejado de banhistas fazendo ouvir o seu pregão: “Tirar o retrato…”
Alguns eram parentes entre si e, na boa tradição poveira, eram conhecidos pelas suas alcunhas de família: o Rato, os Cadeireiros, os Barateiros …


                                          

 

AS FESTAS EM 2008

Apesar de tudo, as  Festas de Nossa Senhora da Assunção apresentam  ainda muito do seu esplendor 

 A parte litúrgica mantém  o seu programa tradicional:
- Tríduo preparatório;
- Alvorada e missa;
- Missa das crianças:
- Missa solene;
- Missa vespertina;
- Procissão com a presença de altas autoridades eclesiásticas.

Com a fachada da Igreja da Lapa vistosamente iluminada, a parte profana das Festas consta habitualmente de:

- Participação da Banda Musical da Póvoa de Varzim que percorre, pela manhã, várias ruas da cidade e dá um concerto no auditório da Lota.

- Actuação do conhecido agrupamento musical "Salsa Show".no Largo António Nobre, junto à Igreja da Lapa

- Foguetório e várias sessões de fogo de artifício.
As festas têm o seu ponto mais alto na magnificiente Procissão de Nossa Senhora da Assunção, cortejo religioso, famoso de norte a sul do País.

 Os sumptuosos andores devidamente decorados com valiosas flores naturais tal como integram a procissão, estão, nos dias que antecedem o do cortejo, expostos na nave da igreja.
Por efeito da erosão do tempo - que, afinal, tudo afecta - , a procissão tem perdido, a pouco e pouco, o esplendor de antigamente, embora mantenha ainda um prestígio que traz à Póvoa milhares de forasteiros.

    

 A Rua 31 de Janeiro, que é das  mais compridas da cidade, e que faz parte do itinerário da procissão, tem sido, nestes últimos anos atapetada com uma extensa passadeira feita essencialmete com pétalas de flores de cores variadas, formando  caprichosos desenhos de lindo efeito. É a réplica duma antiga tradição em uso no bairro norte, onde as ruas são também atapetadas aquando das festas em honra da Senhora do Desterro já aqui descritas minuciosamente em 13 de Junho de 2005 e em 12 de Junho de 2006,
A procissão da Senhora da Assunção,  incorpora altos dignitários do clero,  todas as Confrarias e Irmandades da cidade, bem como representantes da classe piscatória, das autoridades e dos organismos civis. 

    

     Imagem da FOTO TRIÂNGULO

 

    

     Imagem da FOTO TRIÂNGULO

  Participam no cortejo cerca de 250 “anjinhos” que, ricamente vestidos, representam 12 cquadros bíblicos, e nove andores. As imagens sagradas têm, todas, o tamanho natural, e os andores são vistosamente ornamentados com flores.
A organização do cortejo obedece ao seguinte esquema:

-A abrir, um esquadrão de cavalaria da GNR em fardamento de gala;

- Fanfarra

Segue-se o vistoso e pesado pendão de seda branca, bordado a ouro, da Confraria.

- Sucessão de grupos alegóricos de “anjinhos” entre alas de elementos das confrarias, que são identificadas pelas cores das respectivas opas.
As alegorias são:
1º grupo - A Póvoa em homenagem a Maria;
2º grupo - Rainha do Rosário:

    

Imagem da FOTO TRIÂNGULO

3º grupo - S.Pedro, chefe da Igreja (andor de S.Pedro);

4º grupo - Santo António na tomada do hábito de Franciscano (andor de Santo

 António);

    

    Imagem da FOTO TRIÂNGULO

5º grupo - Rainha das Virtudes (andor da Senhora do Sameiro);
6º grupo - Bendita entre as mulheres (andor do Coração de Maria);
7º grupo - Estrela do mar (andor da Senhora da Boa Viagem);

8º grupo - Vaso espiritual

9º grupo - O Rei Assuero recebe a Rainha Ester (andor da Senhora da Lapa);

    

    Imagem da FOTO TRIÂNGULO

10º grupo - Coração de Maria (andor da Santíssima Trindade)

11º grupo - Coração de Maria


andor de Nossa Senhora da Assunção

12º grupo - Morte de Maria

Personificação de Nossa Senhora da Assunção, por "anjinhos" ricamente vestidos

O  andor da imagem da Senhora da Assunção, de braços levantados a abraçar o céu, num belíssimo trabalho escultórico de João d’Affonseca Lapa , segue no último lugar - lugar de honra - levado pelos elementos da companha - com o seu mestre à frente - que ao longo do ano maior contributo tenha feito para o mealheiro da Senhora. É prerrogativa de tradição.

Segue-se o Palio
Após o Pálio, vão os membros  da Real Irmandade, as Autoridades civis militares, os estandartes das Colectividades e das Associações.

Vistosas raparigas ostentando trajes diversos,   do Rancho Folcórico Poveiro e outras  representando associações de bairros, dão uma profana nota de garbo e de beleza ao cortejo.
A fechar a procissão segue a Banda Musical, os devotos no cumprimento  das suas promessas, e a multidão de fieis que, com a sua presença, afirmam a sua arreigada devoção à Senhora.

Entretanto, em volta, por todo o itinerário do cortejo, a multidão de residentes, banhistas e forasteiros constituem uma impresssionante mole humana a emoldurar a procissão.
Na fase final do seu trajecto pelas ruas da cidade, o cortejo pára no local fronteiro à entrada do porto de abrigo. Ali, todos os andores são voltados para a barra , como que numa bênção aos barcos em que, constantemente, os pescadores arriscam a vida.
É um momento comovedor, na evocação de tantas tragédias que aconteceram naquele mar em frente.
O momento nesta altura mais esperado pelo imenso mar de gente que ali se junta, é o do “tiroteio” – manifestação festiva de características únicas em todo o País , que consta dum largo período - cerca de vinte minutos - em que se ouve o som ensurdecedor do deflagrar simultâneo de muitos foguetes -ao todo largos milhares – e, entre eles o estoirar cadenciado, forte e maciço de potentes morteiros.
É um estalejar continuado, ininterrupto, de foguetório, ao qual se sobrepõe, poderosamente, num ritmo sincopado, o ribombar dos morteiros a atroar os ares.
As gaivotas, que aqui abundam na babugem do pescado, recolhem-se arrepiadas de medo sabe-se lá onde, e a multidão aprecia em silêncio tão inusitado espectáculo acústico, enquanto nos céus se vai adensando espessa nuvem de fumo à medida que vão deflagrando os foguetes. Uma salva ainda mais forte faz estremecer os vidros das casas anunciando o final.
Entretanto a imponente procissão, já próxima da Igreja da Lapa de onde saíra, apresta-se para recolher, enquanto a multidão  vai lentamente dispersando, na perspectiva já dos  folguedos que constituem a parte profana da festas , - música , danças e fogo de artifício - que têm lugar na noite que se aproxima, e que mantêm povo interessado madrugada adentro.

   

 

GARATUJANDO AGRADECE RECONHECIDAMENTE  À "FOTO TRIÂNGULO" A GENTIL CEDÊNCIA DE VÁRIAS FOTOS QUE CONSTAM DESTE POST.

  

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publicado por garatujando às 07:40
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