março 26, 2005

TRAJE POVEIRO - Os Lanchões


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A população piscatória poveira dividia-se em três classes distintas:

1 - Lanchões

2 – Rasqueiros

3 – Pescadores à linha, sardinheiros e fanequeiros


LANCHÕES

Os Lanchões eram como que a fidalguia da classe.

Os seus barcos - lanchas - com tripulação entre 20 e 30 homens, eram de maior porte e melhor apetrechados que os outros, o que lhes possibilitava fazer a pesca no “mar profundo” , de onde traziam peixe melhor, como a pescada, mais apreciado e, por isso, vendido a melhor preço.
Viviam numa relativa abastança, o que permitia à família usar melhores roupas, arrecadas e outros adereços em ouro.

RASQUEIROS

Eram os burgueses da pescaria, vivendo uns melhor que outros.
Os seus barcos eram mais pequenos, tripulados por 10 a 15 homens.
Usavam redes denominadas “rascas” com que pescavam raias, lagostas, caranguejos e outros crustáceos, rodovalhos, e outras espécies

PESCADORES À LINHA , SARDINHEIROS e FANEQUEIROS

Constituam a plebe. Utilizavam barcos pequenos, tripulados por 4 a 7 homens que navegavam sempre à vista de terra. Usavam aparelhos a que chamavam "nassas", constituídos por um grande aro que sustentava uma rede em forma de saco, principalmente destinados a pesca da faneca.
Muitos destes pescadores faziam-se meeiros, isto é, trabalhavam com redes pertencentes a outros, sendo o produto da pesca dividido em partes iguais pelo dono da rede e o trabalhador.
Viviam com muita pobresa.


Os pescadores poveiros usavam todos, no trabalho, trajes do mesmo tipo, mas que diferiam na qualidade dos tecidos usados e na confecção, conforme a classe em que se inseriam.

O traje do Lanchão, que se mostra na gravura acima, descreve-se como segue:

A mulher usava blusa que, no verão, era de chita estampada, de mangas rematadas com folhos, que igualmente adornavam a cintura e o peito. No Inverno a blusa, que obedecia aproximadamente ao mesmo modelo, era feita de armazona (tecido grosso normalmente com desenhos em xadrez) para agasalhar mais do frio.

Usava um saiote normalmente vermelho, de flanela, por baixo da saia rodada feita dum tecido conhecido por castorina, de cor escura, franzida na parte detrás e com simples pregas na parte da frente para permitir o uso de avental. Este era de riscado, muito rodado, com listas verticais.

À cintura, uma faixa vermelha ou preta.

Na cabeça usava um lenço estampado, de merino – então designado por lenço chinês – de forma quadrada, que, dobrado em diagonal fazia um triângulo sobre outro. O vértice do triângulo caía por detrás da cabeça, e as duas pontas fechavam-se com um nó por baixo do queixo.

Sobre a faixa, no flanco direito, trazia uma algibeira de duas faces. A face dianteira tinha duas bolsas e a de trás uma bolsa maior.
Aí guardava o dinheiro que arrecadava na venda do peixe.

Diga-se, a propósito, que a mulher do pescador tinha uma grande preponderância na gestão da vida económica do casal.
Era ela que procedia à venda do peixe e administrava o dinheiro decidindo como e onde utilizá-lo.
Quando o homem necessitava de dinheiro para os seus gastos pessoais pedia-o à mulher.

A mulher do pescador utilizava uma cesta de verga – vime -, com formato oval e uma asa em forma de arco, onde levava as provisões para o marido se alimentar no mar, quando andava na faina da pesca.

Na cesta:
- Broa (pão de milho)
- Peixe cozido regado com molho fervido (molho tipicamente poveiro feito com azeite,cebola, salsa e colorau)
- Vinho verde tinto (um pequeno garrafão de uma canada (medida correspondente a 2 litros)
- Garrafa com aguardente de bagaço – 1 quarteirão (correspondente a um oitavo de litro).


O homem usava catalão, de origem espanhola segundo Santos Graça, espécie de barrete importado por contrabando nas arribadas dos nossos barcos às praias galegas. Era feito de tecido vermelho com forro branco. Enfiava-se na cabeça com uma dobra de cerca de dois dedos de largura.
Sem costura no fundo, o catalão não tinha borla nem qualquer outro apêndice.

Vestia camisa (a que chamavam camisola) feita de armazona, sobre uma peça interior de flanela (camiseta),

Por cima de ceroulas também de flanela, aos quartos, vestia calças de surrubeque – tecido semelhante ao burel, fabricado na Covilhã.

A parte debaixo de cada perneira era dobrada para cima sobre si mesma, apanhando também a ceroula, que ficava à mostra. Desta forma acautelava as calças da água do mar quando se metia na língua da maré.

Pormenor curioso: com esse arregaçar, uma perneira ficava, invariavelmente, mais comprida que a outra.

Na faina da pesca, para se defender da água do mar e da chuva usava roupa feita de pano-cru impermeabilizado com várias demãos de óleo de linhaça a que chamam óleo fervido.
Usava ainda um amplo agasalho para dormir no barco, o gabão com capuz, feito dum tecido grosseiro chamado saragoça.
Com essa roupa formavam uma trouxa que, amarrada com cordas, transportavam como se fora uma maleta.

Usava, também, um colete feito do tecido das velas dos navios bacalhoeiros, os lugres, que andavam na pesca do bacalhau nos gelados mares do norte.
Na pesca do bacalhau, que era sazonal – de Abril a Setembro -, empregavam-se muitas centenas de pescadores poveiros.
Os coletes feitos desse tecido eram tingidos numa cozedura de casca de salgueiro triturada que lhes emprestava um tom castanho avermelhado e lhes dava maior resistência. A esse tratamento submetiam também as redes para o mesmo efeito numa operação designada por “encascar as redes”.

Esses coletes, para além da sua função de agasalho, serviam também proteger o corpo tornando menos penosa a acção de alar as lanchas que regressavam da pesca.
Os homens firmavam então os pés na areia e de costas empurravam, com grande esforço, os pesados barcos praia acima, ciclópica acção em que todos participavam, homens, mulheres e mesmo os muito jovens. Era o celebrado quadro do “Ala arriba” poveiro.

No seu trabalho, o homem e a mulher andavam descalços, já que na areia da praia qualquer calçado seria inadequado.

Na classe de lanchão, ou se era já originário de família, ou se ingressava pelo casamento, como aconteceu com o homem que se vê na imagem.
Começou a trabalhar aos 14 anos como sardinheiro, portanto na classe que é, como se disse, a mais baixa da profissão, e foi subindo na hierarquia passando a rasqueiro e por último a lanchão por via do seu casamento. A mulher descende duma tradicional e abastada família de lanchões.

Será oportuno agradecer aqui àquele casal, Ernesto Neves e Guilhermina Rajão, a preciosa ajuda que me deu com os seus pormenorizados esclarecimentos, sem os quais a descrição acima não teria sido possível.


Lancha_desenho.JPG


Posted by carlosferreira14 at março 26, 2005 09:28 AM
Comments
Olá,não podia passar por cá sem comentar.Sendo do concelho da Póvoa de Varzim,com muito orgulho,gostei imenso de ver divulgado a tradição poveira e os costumes do passado.Quanto ao desenho que encontrei acima,está simplesmente espectacular.Que talento!!!!Parabéns.Um abraço Posted by: Diva at março 29, 2005 12:20 AM
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