ARTESANATO

Sobre a almofada, nos bilros,
curtidas mãos exercitam
líquida paciência.
Os bilros têm sons de infância.
As mãos avultam, tranquilas,
no alegre bater dos bilros.
Mãos e bilros, mãos e bilros
de um fundo a outro do abismo
tecendo a renda do tempo
Anderson Braga Horta
RENDA DE BILROS
A origem das rendas não é consensual. A teoria mais aceite, formulada por vários estudiosos, é a de que são oriundas do oriente (da China ou da Índia), tendo chegado a Portugal através da Itália.
Na Europa tiveram época áurea as de Milão e de Bruges, chegando os padres a encomendá-las para os seus trajes e as noivas para os seus vestidos.
Em Portugal as rendas flamengas estiveram muito em voga no tempo de D.João V.
Daqui, esta forma de artesanato passou à Madeira e aos Açores, e foi pelas mulheres portuguesas que chegou ao Brasil, onde é praticada principalmente no Nordeste.
A diferença entre a renda e o bordado é evidente: no bordado trata-se da aplicação dum ornamento feito no tecido com uma agulha, enquanto que a renda resulta do entrelaçamento de fios, numa urdidura que se desenvolve com a forma de desenho, sem ter um fundo de tecido.

A confecção da renda é efectuada sobre uma almofada dura em que é pregado um papelão - chamado “pique” –, crivado de furos que determinam o desenho.
Nesses furos são espetados alfinetes que a rendilheira vai mudando de lugar à medida que o trabalho se desenvolve.

Os fios são manejados por meio de bilros, que são pequenas peças de madeira torneada. Numa das extremidades de cada bilro está enrolado o fio, enquanto que a outra extremidade tem a forma de esfera ou de pêra, conforme o uso na região.
Os bilros são manejados aos pares pela rendilheira que, habilmente, imprimindo um movimento rotativo e alternado a cada um dos bilros, e orientando-se sempre pelos alfinetes, vai-os mudando à medida de o trabalho progride. O número de bilros utilizado varia conforme a complexidade do desenho, havendo trabalhos em que são empregues 14, 18, ou mesmo mais de vinte pares de bilros.

Em Portugal a arte da renda de bilros tem notória expressão em Peniche e em Vila do Conde, regiões em que a prática desta forma de artesanato é antiquíssima.
Rendas de Vila do Conde

Em Vila do Conde há uma escola onde se assegura a continuidade, no tempo, desta prática artesanal, e o “Museu das Rendas” que nos dá a oportunidade de conhecer alguns pormenores da História da Renda de Bilros, a técnica de trabalho e os instrumentos utilizados.
Dignas de apreço, as preciosas peças ali expostas, notáveis pela delicadeza e arte dos desenhos.


No museu funciona um conjunto, ao vivo, de mulheres a trabalhar, interessante quadro a que a destreza das mãos e o “cantar dos bilros” dedilhados pelas experientes mãos das simpáticas e discretas rendilheiras dão especial encanto.
Rendas de Peniche
Tecidas cuidadosamente pelas mãos das mulheres penichenses, as Rendas de Bilros escondem uma técnica secular de origens misteriosas.
Dividida em rendas eruditas (desenho e técnica) e rendas populares (renda antiga), a renda de bilros de Peniche tem um pormenor que as distingue de outras produzidas em Portugal: o processo de urdidura.
As rendilheiras de Peniche trabalham com as palmas das mãos voltadas para cima. Outro pormenor característico é o facto de, nestas rendas, não se distinguir o direito do avesso.



Na Póvoa de Varzim, o artesanato de renda de bilros é também prática muito antiga e conheceu, hà alguns anos, grande expansão, quando António Francisco dos Santos Graça, “O Brasileiro” (1851-1918), fundou e custeou uma escola onde uma mestra, oriunda de Vila do Conde, ensinou aquela arte a grande número de jovens poveiras.
Presentemente esta actividade tem, na Póvoa, pouco expressão.

Com noventa e cinco anos de idade, esta rendilheira poveira, Justina Pereira da Silva, ainda faz renda de bilros e tem o seu nome mencionado nos roteiros turísticos da cidade como artesã da especialidade.
Posted by carlosferreira14 at maio 14, 2005 11:00 AM